Maratonas
Eu leio A Canção do Profeta. Tu corres a maratona. Ela faz um bolo. Nós vemos Modern Family. Uma dinâmica familiar.
Quando o Tiago me apresentou o mapa das maratonas para este ano, franzi o sobrolho. Ele farta-se de correr por aí. Às vezes, acompanho-o, se a cidade me interessar. Mas nem sempre tenho dinheiro e nem sempre me interessa.
É que isto de ser claque de maratonista tem o que se lhe diga. É preciso definir estratégias, estudar mapas e estações de metro, cronometrar posições, acompanhar o live feed e conseguir chegar àquele lugar, àquela hora, naquela curva larga o suficiente para o ver chegar, acenar, gritar, o diabo a sete. Depois, é aproximar-me o mais possível da linha de meta e ficar à espera, às vezes durante muito tempo, a ver se o encontro no meio de milhares de pessoas. Ele nem sempre leva o telemóvel; eu estou sempre com a bexiga cheia.
A véspera da maratona é passada num qualquer centro de exposições, porque há que levantar o dorsal e ver a feira, tirar foto aqui, foto ali, experimentar géis e sais e meias e fitas, coisas que só interessam mesmo a quem corre. E o pós é passado nos copos com os amigos das maratonas, no meio de muita testosterona, a comparar tempos e tamanhos. Nos entretantos, visita-se a cidade, quando dá. É preciso gostar muito da modalidade, ou gostar muito de quem a pratica.
Portanto, na maioria das vezes, não o acompanho. Ele vai aonde quer e com quem quer, e eu não me chateio, não fico ciumenta nem sou controladora, que ter liberdade é saber dar liberdade ao outro. Mas quando ele me apresentou o mapa das maratonas e percebi que se ia ausentar quase uma vez por mês, franzi o sobrolho. Porque, sejamos práticos: na ausência do cozinheiro, quem tem de cozinhar sou eu! E, ao passo que ele cozinha muito bem, eu nem por isso. E o pior nem é o ato em si, é o ter de pensar no que vou fazer. Ao contrário dele, não sou pessoa de abrir o frigorífico e fazer uma iguaria com uma cenoura e meia sardinha.
Por outro lado, as miúdas já estão crescidas e não dão trabalho nenhum. Adquirimos o hábito de, quando o pai não está, irmos ao sushi ali da avenida e termos conversas de miúdas para miúdas. Em casa, jantamos de tabuleiro no sofá a ver Modern Family. É a nossa cena, e ai de alguma de nós que veja um episódio sem as outras.
Isto para dizer que, neste fim de semana, o pai foi fazer a maratona de Sevilha e nós as três fizemos uma maratona de Modern Family. Ele ficou contente com o tempo que fez abaixo das 3h45, eu fiquei contente com o guisado de lulas que fiz para o almoço de domingo, e elas tiveram a amabilidade de dizer que estava bom. Depois, vi Little Miss Sunshine com a mais velha. A mais nova, que sai ao pai no jeito para a cozinha, fez um bolo para o lanche, que ficou alto e fofo, enquanto eu terminava os trabalhos da semana para o mestrado e pensava que isto de haver muitas maratonas até tem as suas vantagens, não fosse o ter de pensar na cozinha.
📖 O que ando a ler
Recentemente, li Vista Chinesa, da brasileira Tatiana Salem Levy, Depois de Annie, de Anna Quindlen, com tradução de Francisca Cortesão, e A Canção do Profeta, de Paul Lynch, com tradução de Marta Mendonça.
Recomendo todos, gostei de todos. No entanto, põe o cinto, porque A Canção do Profeta é um camião que nos abalroa logo de início e nos vai estraçalhando até ao fim. É um livro estrondoso, sofrido mas maravilhoso, para o qual ninguém está preparado e que, no entanto, é tão importante. Não é fácil de ler, porque nos tira o ar dos pulmões e esmurra várias vezes no estômago. Mas aquele fim... Eu, que nunca me lembro dos finais dos livros, nem dos que mais me marcaram, deste final nunca me vou esquecer. Se só puderes ler um livro, lê este.
🎵 O que ando a ouvir
Por falar na Francisca Cortesão, há uns anos ouvia Minta & The Book Trout. Achei graça à coincidência do nome e fui confirmar: a pessoa que traduz é a mesma que canta.
Mas esta semana, num bar em Coimbra, ouvi Hooverphonic, que me transportou imediatamente para os meus 23 anos. Na viagem para casa, quando tentava fugir das cheias que, felizmente, não se concretizaram de forma calamitosa, descobri esta versão da Mad About You, num feliz casamento do trip hop com a música clássica.
Desde então que não oiço outra coisa.





A imagem do camião é a melhor definição de “A Canção do Profeta”, que no fim de 2024 é do qual também não me esqueço. Sobre a cozinha, sim, pensar no que se vai fazer é o mais chato de tudo. Para essas horas, corro à Rita Lobo, não sei se a conheces? Pode ser-te útil na próxima maratona: https://panelinha.com.br/
Adorei a música! Obrigada 🤗